RASGO — Residência artística
Quatro artistas passaram seis meses pensando e produzindo no Grafatório. Dessa experiência imersiva eles nos apresentam agora o resultado final: uma exposição, cuja marca mais visível é a heterogeneidade, a diferença.
E isso parece ser uma coisa natural, em certo sentido. Em algumas pessoas, o contato com as prensas, prelos e impressoras do ateliê bate mais fundo, mobiliza afetos intensos, tira estratégias da inércia. Em outras, isso tudo bate menos, e as possibilidades do maquinário funcionam como coadjuvantes que auxiliam o protagonismo de poéticas desenvolvidas em encontros outros.
A artista Karina Rampazzo, por sua vez, se encontrou com as tintas e os rolos do prelo offset e viu ali um campo fértil para pulsões expressionistas. A mancha, a densidade das cores, o acaso controlado pelo gesto – tudo isso passou a integrar seu repertório de gravuras e desenhos. O resultado são obras que oscilam entre a figuração e a abstração, nas quais o corpo aparece como vestígio, como membrana exposta ao mundo. O contato direto com a matriz e a possibilidade de sobreposição de camadas abriram para Karina novos diálogos entre a gravura e o desenho, expandindo as fronteiras de sua pesquisa.
Ricardo Bagge, cartunista e colagista, encontrou no prelo offset um novo aliado para sua investigação artística. Com uma obra marcada pela crítica política e pelo humor, ele utiliza a colagem como ferramenta para comentários visuais. No ateliê, descobriu um novo método de colagem ao manipular chapas offset, além de incorporar clichês tipográficos antigos e tipos móveis de madeira. A obra O Evangelho segundo São, feita em parceria, evoca a estética rudimentar dos velhos jornais e resulta em uma poesia marcada pela ironia, sátira e melancolia.
O duo Danillo Villa e Katharine Prada utilizou o ateliê como um espaço para refletir sobre a materialidade da palavra e seu potencial de confronto. Dessa parceria surgiu O discurso te veste / as palavras te despem, uma série de camisetas que convida o espectador a vestir frases desconcertantes. O trabalho aborda temas como corpo, linguagem e moralidade, dialogando com as investigações de Paulo Bruscky e Paulo Leminski. A obra só se completa fora do espaço expositivo, quando as camisetas são usadas nas ruas. Além disso, a produção de lambes no prelo offset amplia o alcance do trabalho, levando as palavras também para os muros da cidade.
Flores no Prelo é o resultado da segunda edição da RASGO, residência artística que propõe uma imersão em criação gráfica. A residência é um projeto independente do Grafatório feito em parceria com os artistas convidados.
Fonte — https://grafatorio.com
Residência e Exposição Flores no prelo, 2017.